A Amazônia vista por Roger Casement: denuncias, direitos humanos e memria

A exposição Roger Casement: Amazônia em foco acontece em Manaus, no Museu da Cidade, instalado no Paço da Liberdade, reunindo um conjunto expressivo de fotografias, documentos e conteúdos históricos sobre a atuação de Roger Casement na Amazônia.

A Amazônia vista por Roger Casement: denúncias, direitos humanos e memória

 A mostra apresenta ao público a trajetória do diplomata irlandês, seu trabalho de investigação e o legado de suas denúncias sobre as violências cometidas durante o ciclo da borracha, especialmente contra populações indígenas. A curadoria é assinada por Angus Mitchell, Laura Ibarra e Mariana Bolfarine, com design gráfico de Alex Navarre, resultado de um esforço coletivo de pesquisa, organização e preservação da memória histórica ligada à região amazônica.

A atuação de Roger Casement, como diplomata e investigador,  na Amazônia e o contexto histórico das denúncias de violência associadas ao ciclo da borracha no início do século XX, torna evidente que a riqueza produzida pela economia gomífera esteve profundamente associada à escravização, à tortura e ao extermínio de populações indígenas e de trabalhadores nordestinos, sobretudo na região do Putumayo.

Enviado à Amazônia em 1910, Casement documentou de forma sistemática essas violações por meio de relatórios, depoimentos, diários e registros fotográficos, contribuindo decisivamente para a denúncia internacional dos crimes cometidos na região.

A retomada dessas narrativas ressalta a importância da memória histórica para a compreensão da Amazônia como um território marcado por conflitos, violações de direitos humanos e disputas econômicas, tensionando leituras romantizadas da região e evidenciando as bases violentas de sua inserção nos circuitos globais de produção de riqueza.

Na abertura da exposição, dia 03 de fevereiro, estiveram presentes o cônsul em exercício da Irlanda Maurice Nolan e a curadora Mariana Bolfarine, que compartilharam reflexões sobre a vida e a obra de Roger Casement, estabelecendo conexões com questões contemporâneas:

AmazôniaEco Blog: Como você percebe a importância da Amazônia no cenário global contemporâneo, tanto do ponto de vista ambiental quanto histórico, político e humanitário, à luz das denúncias e debates apresentados na exposição?

Mariana Bolfarine: Roger Casemente previu o que está acontecendo hoje, porque ele viveu o auge da borracha. Ele viveu o excesso de exploração da seringa, da borracha e ele previu isso acontecendo, ele escreveu isso num catálogo “Roger Casemente no Brasil: a Borracha, a Amazônia e o Mundo dos Atlânticos.” Ele teve essa visão que hoje é muito disseminada em termos de ecologia. Ele foi uma pessoa muito adiantada pro seu tempo. Ele previu que além de que a exploração da borracha iria ter um fim porque era uma exploração abusiva, ele conseguiu fazer uma conexão com a Irlanda, porque a Irlanda teve toda a floresta dizimada pelos ingleses, os ingleses cortaram as árvores da Irlanda, que não tinha mais floresta, tiveram que reflorestar pra tentar chegar perto do que era antes dos ingleses. E o Roger Casement percebeu isso, ele tinha essa visão de ecologia, em termos de meio ambiente e até de pirataria, ele usa o termo pirataria pro que estava acontecendo na Amazônia e isso é muito a frente do seu tempo.

AmazôniaEco Blog: De que maneira esta exposição contribui para a compreensão crítica da história amazônica, especialmente ao evidenciar as violências cometidas durante o ciclo da borracha e o papel de figuras como Roger Casement nesse contexto?

Maurice Nolan: Roger Casement é uma figura muito importante na causa da independência irlandesa. Muitos irlandeses não sabem que ele trabalhava em direitos humanos. Então a ideia é trazer a história completa de Roger Casement para os brasileiros que não o conhecem, mas também para nós os irlandeses que conhecemos uma parte da história dele, mas não conhecemos essa outra parte da atuação na África e também no Brasil. Nós ficamos muito felizes e gratificados porque a exposição vai ficar aqui por um prazo indeterminado e que as pessoas que visitem o museu vão ter um pouco mais da história, obviamente uma história bastante longa, muito tensa, então a exposição vai acordar o interesse e as pessoas vão pesquisar mais, porque é muito complexa a história dele. Mas como pessoa irlandesa é uma honra estar aqui e ver o interesse do lado brasileiro sobre a história dele, uma história que tem que ser divulgada.

AmazôniaEco Blog: A partir das reflexões provocadas pela exposição, existe hoje algum projeto — ou a intenção de criar um — voltado à proteção e valorização de comunidades indígenas e ribeirinhas, seja no campo cultural, educativo ou de defesa de direitos?

Maurice Nolan: Lançamos, o Ministério Exterior da Irlanda, uma bolsa de estudos e o público-alvo dessa bolsa são estudantes indígenas, quilombolas, de minorias brasileiras também, pra estudar um Mestrado em Direitos Humanos, Direito também, tem uma gama de cursos universitários que são elegíveis. Também estamos com o Fundo Amazônia, desde o ano passado, que tem vários editais dirigidos aos povos indígenas da amazônia. E no trabalho da embaixada, acho que além do financiamento, que é importante, temos um trabalho de divulgar e de fazer advocacy para os povos indígenas, como divulgação de mensagens importante para eles.

A exposição dialoga diretamente com a obra de Angus Mitchell Roger Casement: Amazônia em foco se conecta com o livro Roger Casement no Brasil: a borracha, a Amazônia e o mundo do Atlântico (1884–1916)porque ela parte do mesmo esforço de tornar visível a presença de Roger Casement na Amazônia e o significado histórico de suas denúncias.

O livro oferece uma base sólida de pesquisa, documentos e interpretações que ajudam a compreender a Amazônia como um espaço inserido em redes internacionais de poder, economia e exploração durante o ciclo da borracha. A exposição traduz esse conteúdo para o espaço museológico, por meio de imagens, textos e objetos, permitindo que o público visualize e sinta esse contexto histórico.

A exposição e a obra provocam reflexões sobre como esse passado de violência e desigualdade continua a ecoar na história e na realidade amazônica contemporânea.

Para Milton Hatoum,  o pensamento e o ativismo de Roger Casement são bastante atuais:

“Hoje a vida e a obra de Casement tem um significado fortíssimo e muito relevante porque nós estamos vivendo, e eu falo do Brasil, muitas coisas que foram apontadas, que foram denunciadas pelo Casement. Por exemplo, territórios indígenas sendo invadidos. Líderes são assassinados. Quer dizer, o horror não terminou.” (apud MITCHELL, 2011).

Segundo Llosa “Além de lutar insistentemente pelos Direitos Humanos e defender os povos indígenas, Roger Casement foi um observador perspicaz da natureza, da vida social e dos diversos tipos humanos que cruzaram sua vida, tão rica de experiências e aventuras” (LLOSA, 2011) .

Nas cartas reunidas no apêndice da obra, é possível identificar um olhar de Roger Casement que se antecipa ao seu tempo, ao reconhecer a miscigenação brasileira como um valor positivo para a humanidade (MITCHELL, 2011, p. 78):

 (…) Nós não sabemos como surgiu o ramo ariano, nem como o caucasiano se desenvolveu ou como foi gerada a família celta, a teutônica ou qualquer outra família distante de linhagem nobre. Pode ser que, na política liberal, o sentimento de igualdade sincero e de todo o coração que levou os brasileiros a uma mistura de raças, que não fora tentada em nenhum outro lugar em uma escala tão ampla, iremos deparar-nos com um impulso bem mais nobre de humanidade, encontrando expressão duradoura para o bem da espécie humana, do que na separação cruel e inflexível do governante e dos governados, da qual o ingleses são e tem sido os exemplos mais impiedosos.

Ao revisitar a trajetória de Roger Casement por meio da exposição e da obra de Angus Mitchell, reafirma-se a importância de olhar para a história amazônica a partir de suas violências estruturais e de suas vozes dissidentes. Mais do que um personagem do passado, Casement emerge como uma figura cuja atuação e pensamento seguem iluminando debates contemporâneos sobre direitos humanos, justiça social e preservação da Amazônia, lembrando que a memória é também um instrumento fundamental de resistência e reflexão crítica no presente.

LLOSA, Mario Vargas. Apresentação. In: MITCHELL, Angus. Roger Casement no Brasil: a borracha, a Amazônia e o mundo do Atlântico (1884–1916). São Paulo: Humanitas, 2011.

MITCHELL, Angus. Apêndice. In: Roger Casement no Brasil: a borracha, a Amazônia e o mundo do Atlântico (1884–1916). São Paulo: Humanitas, 2011.

MITCHELL, Angus. Notas à reimpressão. In: Roger Casement no Brasil: a borracha, a Amazônia e o mundo do Atlântico (1884–1916). São Paulo: Humanitas, 2011.

Fotos – Deborah Lima

Publicidade
Outros Post

Gostou? Compartilhe