O escritor amazonense Milton Hatoum tomou posse na cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras na noite de sexta-feira (24), numa cerimônia concorrida e cheia de significados e ritual centenário.

Hatoum é o primeiro amazonense da casa, em sucessão do jornalista Cícero Sandroni, morto em junho do ano passado.

Com nove livros de ficção publicados, Hatoum escreveu dentre eles os romances “Relato de um certo Oriente”, “Dois irmãos” e “Cinzas do Norte” (Companhia das Letras), vencedores do Prêmio Jabuti. Sua mais recente obra é de 2025, quando ele encerrou a sua triologia “O lugar mais sombrio”, que inclui os títulos “A noite da espera”, “Pontos de fuga” e “Dança de enganos”, que entrelaça dramas familiares à história da ditadura militar brasileira entre os anos 1960 e 1980.
Entre suas obras estão também coletâneas de contos e crônicas. Ao todo, tem mais de 500 mil exemplares vendidos em 17 países. “Fico muito grato a todos da Academia que me elegeram. É uma homenagem sobretudo aos meus leitores e leitoras, aos professores e professoras, não só da Amazônia, mas de todo o Brasil”, disse o autor na chegada à ABL para a posse. “São pessoas que trabalharam e trabalham com meus livros, sou extremamente grato a esses educadores. O salto qualitativo do nosso país passa pela educação pública de qualidade. Sou filho dessa educação pública, do pré-escolar até a universidade, até os estudos superiores”, comentou.
Recentemente Hatoum teve reeditada a obra, “Crônica de duas cidades: Belém e Manaus”, escrito em parceria com o filósofo e crítico literário Benedito Nunes, morto em 2011. O obra faz um panorama histórico-cultural das duas metrópoles da Amazônia brasileira, com um ensaio de cada autor.
Hatoum é conhecido como escritor de produção meticulosa e os longos intervalos entre as publicações. Durante sua posse na ABL, discurso de posse, ele brincou com a fama durante a cerimônia. “Meus filhos sempre me perguntam por que demoro tanto para terminar o livro”, revelou respondendo: “Olha, eu mesmo não entendo essa lentidão que, no entanto, não me exaspera. Talvez ela guarde uma relação atávica com o tempo e com o ritmo da Amazônia, de onde eu vim”. Sobre o tempo para o amazônida, ele citou um relato do médico Drauzio Varela, sobre o passar do tempo para o ribeirinho.
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No discurso, o escritor diz que “enquanto houver a vida neste mundo em chamas, haverá histórias a ser narradas, lidas e ouvidas”. “Não vivemos apenas no real, vivemos também no imaginário, nos sonhos, na literatura, nas artes, no teatro, essa arte viva. Na experiência mística. Vivemos também no devaneio. A humanidade não pode suportar tanta realidade como diz o famoso poema de Eliot. Um dos meus devaneios é imaginar um punhado de leitores anotando os mesmos trechos de um livro”, ressalta Hatoum. “Isso acontece nas manhãs nada inspiradas, em que busco alguns livros, frases sublinhadas, imagino leitores sublimando as mesmas passagens do romance “A hora da estrela”, os mesmos versos de um poema de João Cabral, com esta frase de um conto de Guimarães Rosa: “Só sabemos de nós os mesmos com muita confusão”.

A escritora Ana Maria Machado, em sua fala de apresentação de Hatoum, lembrou de uma característica dele: “Ouvindo minha sugestão[de candidatar-se a ABL], o ar de espanto dele foi autêntico e inesquecível”. “Evidentemente, a hipótese não lhe ocorrera jamais. Ficou sem ter o que dizer, balbuciando desculpas. Mas prometeu pensar no assunto. Pois não é que ele levou dez anos pensando? Só agora, em final de 2025, resolveu se candidatar, e, por isso, estamos todos aqui a festejá-lo hoje”, comemora a autora.

Em sua fala o presidente da ABL, Merval Pereira, Hatoum toma posse como “o maior escritor brasileiro vivo” e um “romancista de primeira ordem”, afirmou. “Ele é um escritor excepcional, cujo trabalho enriquecerá a ABL”, diz Pereira. “Hatoum já colaborava com a instituição, especificamente com a Revista Brasileira, e sua entrada como imortal ampliará essa contribuição”.
Hatoum recebeu o colar (medalha simbólica entregue aos novos membros) da acadêmica Rosiska Darcy e o diploma da acadêmica Lilia Moritz Schwarcz; a espada foi entregue por Arnaldo Niskier. A comissão de entrada foi formada pelos Acadêmicos Antonio Carlos Secchin, Domício Proença Filho e Eduardo Giannetti; a comissão de saída pelos Acadêmicos Arno Wehling, Ana Maria Gonçalves e Gilberto Gil.
Fotos: Divulgação ABL




