Entrevista com o professor e sociólogo, Luiz Antônio Nascimento, ativista do Movimento Negro Unificado

O portal Cultura Norte entrevista um especialista na questão da negritude brasileira, que além de professor universitário é um ativista fundador do movimento negro brasileiro. O professor e sociólogo, Luiz Antônio Nascimento, é docente da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) desde 1992 nos cursos de Ciências Sociais, Serviço Social, Engenharia Florestal, História e Geografia. É doutor em História, e por conselho de sua mãe Maria Catharina, passou a usar o título na assinatura como forma de inspirar as novas gerações ao conhecimento universal, assim como ele foi inspirado por professores doutores ao longo de sua carreira acadêmica. Militante do Movimento Negro Unificado (MNU), esteve nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, no final de tarde, em que o MNU foi fundado; frequentou as rodas de “Break” no pátio da estação São Bento do metrô paulistano. É assessor de movimentos sociais, estudioso da violência e política de segurança pública em Manaus, e dos processos de luta e defesa da terras e dos territórios camponeses.

     

 

1. PCN – Como o senhor avalia as celebrações e debate do dia (semana) da Consciência Negra desde sua criação em 2011?
Luiz Antônio – Acho que o 20 de novembro, ou a Semana da Consciência Negra, tem contribuído de forma importante para trazer o debate da discriminação, do racismo e das condições socioeconômicas da população negra no Brasil. E se eu tomar como referência 2011 para cá, a gente pode dizer que está em um gradiente crescente. As coisas mudaram? Mudaram bastante, embora tenha que mudar muito mais: quando, por exemplo, desde os programas de televisão, [da principal rede brasileira], que tem hoje na bancada do principal programa tem uma mulher negra apresentando, tem nas bancadas dos telejornais jornalistas negros, tem uma valorização da identidade sociocultural. Por exemplo, nas novelas, onde tem atores negros não mais naquelas funções subalternas, então isso é um avanço. Mas, não só isso… por exemplo por que uma empresa do interior de Santa Catarina haveria de demitir uma empregada, uma funcionária do quadro, porque ela teve um comportamento racista num campo de futebol? Ela fez isso porque incorporou na sua cultura organizacional a necessidade de se posicionar contra o racismo. Aquilo que a gente tem falado sempre: não basta você não ser racista, é preciso ser antirracista. E isso só foi possível, e outras dezenas de empresas tenham mudado de comportamento, porque têm todos os anos, uma semana inteira, que a gente abre o debate, a população para de fazer o que está fazendo de forma ordinária, para poder discutir. Ontem, por exemplo, eu vim de uma escola pública, onde a escola parou para tratar exclusivamente da questão do 20 de novembro. Então, me parece que sim, a gente tem muito a festejar, embora não esteja plenamente consolidada essa demanda.

2. PCN – E o contraponto da rejeição à data por alguns municípios e Estados, é que tipo de sintoma?
Luiz Antônio – Ao mesmo tempo que a gente vai avançando na ocupação dos espaços, é óbvio que os setores da sociedade racistas, preconceituosos e cheios de discriminação tenderão sempre a se contrapor, a reagir. E muitas vezes essa reação é visceral. Muitas vezes essa reação é física. Porque essas pessoas se sentem incomodadas na sua essência. De novo, vou tomar como referência o caso daquela mulher no estádio de futebol, [Em Santa Catarina] num jogo entre o Havaí e o Remo. Essa mulher estava assistindo um jogo de futebol, mas ela se sentiu à vontade para agredir e ofender os jogadores do time de futebol do Pará, por duas razões: tem uma combinação de xenofobia e racismo. “Volte para lá, vocês não são daqui! Vocês são pobres miseráveis. Vocês são negros, olha a tua cor!” Então, essas pessoas se sentem muito incomodadas, porque é como se a cada conquista do movimento negro, cada conquista de espaço de representação da negritude, é como se essas pessoas estivessem sendo vilipendiadas. Por isso que elas reagem, e vai ser assim, vai ser assim no setor público, vai ser assim nas universidades. Mas, paciência, a história é contada e construída por aquelas pessoas que correm riscos, e você vai ter que enfrentar. Por exemplo na Alemanha nazista à medida que as forças russas foram avançando contra a Alemanha, os alemães nazistas tentaram se contrapor. Na mesma medida, na medida em que pela terra a França foi sendo reconquistada, que Portugal foi sendo reconquistado, que a Itália foi sendo reconquistada, os nazistas de Portugal e da Espanha também se contrapuseram. Portugal levou a ditadura salazarista até a década de 70 do século XX. Porque ali eles conseguiram se afirmar e se construir, criar laços e conseguiram proteger as suas dinâmicas. E levaram isso até a Revolução dos Cravos. Mas ali, quando chega a Revolução dos Cravos, eles já não tiveram muito mais o que fazer. Embora continuem racistas, embora continuem xenofóbicos. Portugal é um Estado, um país muito racista, onde não admite a miscigenação, não admite a presença negra. Quando você tem, por exemplo, desde o começo dos anos 60 do século XX o que Portugal reconhecia como portugueses, os cidadãos nascidos nas ex-colônias. Mas era um reconhecimento, além de tardio, um reconhecimento frágil e incompleto, na medida que essa cidadania foi uma cidadania incompleta.

 

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3. PCN – A principal rede de televisão do país exibiu no dia 20, em horário nobre, dois programas sobre a negritude no Brasil, e um foi o documentário sobre Milton Nascimento. O que o senhor achou?
Luiz Antônio – Como eu falei, quando você pega a principal rede de televisão e traz para o debate dois documentários, sobre a questão da negritude, é uma mudança de comportamento, é uma mudança de atitude, e essa mudança vai rebatendo no cotidiano, na casa das pessoas, no ambiente sócio-familiar, no ambiente acadêmico, não é? Então, é isso que vai mudando o comportamento. Eu lembro, só para a gente tomar como parâmetro de comparação, no início dos anos 80, ninguém acharia inaceitável ou ninguém acharia um absurdo que o pai ou uma mãe batesse rigorosamente, espancasse uma criança, talvez pudesse até se sentir comedido triste, mas todo mundo ia dizer não, o pai e a mãe podem sim bater nessa criança porque ela é isso ou aquilo; hoje ninguém mais admite. Por quê? Porque houve uma campanha forte na televisão nos jornais para que a ideia de respeitar a pessoa daquela criança era fundamental. A ideia de que você precisa buscar outras formas de educar, e de mesmo punir uma criança tem que ser diferente daquela dos espancamentos. Isso resultou numa mudança de comportamento da sociedade. O mesmo vale em relação à questão da negritude. O comportamento do canal de televisão ajuda nisso. E no caso do Milton Nascimento, não sei se você sabia, quando Milton decide junto com bispo Pedro Casaldáliga construir a Missa dos Quilombos, rezada no Recife, ali teve um marco importante na ideia de uma construção de uma consciência negra. A gente poderia até correr o risco de afirmar que a Missa dos Quilombos foi um marco decisório na direção de construir consolidar – na verdade quem construiu fomos nós, o movimento negro – mas, ali se consolidou a ideia de promover uma consciência negra, daí a Semana da Consciência Negra, cuja data de referência é 20 de novembro.

4. PCN – A partir de Zumbi dos Palmares, quais principais nomes o senhor citaria que contribuíram fortemente para o movimento de libertação e conquista da cidadania dos negros no Brasil?
Luiz Antônio – Sobre os nomes de referência da construção do movimento negro. Eu diria, em primeiro lugar, o Movimento Negro Unificado (MNU). É uma pessoa coletiva, digamos assim, que reúne todos nós, reúne a juventude, a molecada do “hip-hop”. Outro dia teve um evento de “hip-hop” aqui na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), e eu comentava com os meninos que, lá nos anos 80, nós nos reuníamos na estação do metrô São Bento, em São Paulo, para ouvir a novidade que era o “hip-hop” que estava vindo dos Estados Unidos, e entender e construir ao nosso modo os cinco elementos constitutivos do movimento “hip-hop”. Mas ali também, do lado, a 150, 200 metros de distância, nas escadarias do teatro municipal, a gente construiu e inaugurou o movimento negro unificado, ainda da década de 70. Então acho que o MNU tem uma centralidade, claro que você tem homens e mulheres, como: Abdias Nascimento Maria Isaura do Nascimento, Dulce Cardoso, Messias de Jesus, Carolina de Jesus. Você tem muita gente importante, que eu, claro que vou esquecer, não vou conseguir lembrar o nome de todos eles… Clóvis Moura, um intelectual importante, o Milton Santos [geógrafo], que trouxe para dentro da academia o debate sobre a questão da negritude. Não que ele tenha trazido sozinho, não é isso, mas ele foi um cara importante para esse debate sobre a questão da negritude. Enfim, tem um número grande de pessoas que contribuíram de forma decisiva. Aqui no Amazonas, tem muita gente: Nazaré Correia, Nestor Nascimento, Adamor Guedes, líder do movimento Gay de Manaus.

5. PCN – O Amazonas, na sua análise, tem uma história do negro mostrada e discutida à altura de sua importância?
Luiz Antônio – Sobre a presença negra e os estudos e o debate sobre a questão da alegritude no Amazonas, aqui você tem um elemento importante, que é, com o processo de redemocratização do Brasil, quer dizer, antes da democracia brasileira, antes da ditadura, esse tema não era um tema que estava posto na pauta social e acadêmica local. Tinha outras pautas. E, após a democracia, a universidade, por exemplo, ela abriu um conjunto de temas legítimos para discutir, para pensar, como a questão camponesa, a agrária, a do polo industrial, os novos movimentos sociais que estavam em ebulição, de tal maneira que se retardou, vamos dizer assim, pautar a questão da negritude. E isso também tem a ver com a ausência da população negra dentro da universidade. Embora nós já tivéssemos pessoas negras na universidade, não tinha um espaço e um caldo de cultura para tratar dessa questão dentro da universidade, que não é só aqui. Nos anos 80, eu ainda era estudante universitário e nós realizamos na Universidade Estadual Paulista (Unesp), o primeiro encontro de referências negras. Foi um encontro em que a gente reuniu na universidade as referências negras que nós tínhamos na academia brasileira. Estiveram ali, de novo, Milton Santos, Abdias Nascimento, Clóvis Moura, esses caras, essa turma toda, Leci Brandão, Chiquinha de Jesus, enfim, essas pessoas para dentro da universidade; foi onde a gente abriu um debate sobre a negritude, estou falando lá em São Paulo, você imagina que nós não tivemos isso aqui no processo de redemocratização. Daí talvez a gente possa entender que esse tema tenha sido digamos assim, tardiamente virado um tema de reflexão acadêmica, mas eu lembro dos anos 90, uma jovem estudante de história que ousou, inclusive indo na contramão das recomendações acadêmicas dos colegas professores, estudar a presença negra. Ela fez o trabalho de conclusão de curso, depois fez um mestrado na área, estudando a presença negra no Amazonas. O nome dela é Orange Matos Feitosa, hoje ela está em Minas Gerais, se não me engano. Ela escreveu, defendeu uma dissertação de mestrado, discutindo a presença negra no Amazonas.

6. PCN – O movimento negro contribuiu para que outros movimentos sociais tenham se fortalecido, como dos indígenas, diversidade e religioso?
Luiz Antônio – Claro que a ascensão do movimento negro, lembro como se fosse hoje, nossos encontros nos centros culturais, Vergueiro, por exemplo, na zona sul de São Paulo, no Largo do Paissandu, no centro da cidade, na quadra [das escolas de samba] Vai Vai, na quadra da Rosas de Ouro, da Mocidade Alegre, toda vez que nós nos encontrávamos ali enquanto movimento negro, não estava só a negritude, mas estava ali também o pessoal dos terreiros e estavam lá também as comunidades que hoje a gente chama de LGBTQIA+, mas naquele momento a gente chamava de outra maneira, os gays, os travestis, etc. Então foram importantes, porque nesse espaço da construção do movimento negro, que teve uma influência, uma presença muito grande das comunidades de terreiro, ali a gente aprendeu – foi muito interessante isso -, ali eu era um moleque estou falando de um garoto de 13, 14, 15 ano, eu tenho uma trajetória desde muito jovem, com 13 anos estava dentro de um chão de fábrica trabalhando muito. Bem, ali você tinha por conta das mulheres e dos homens de terreiro, a gente conseguiu um processo muito pedagógico de conseguir construir um respeito, uma admiração por aqueles que eram diferentes de nós, do ponto de vista sexual. Reconhecer um travesti, reconhecer um homossexual, uma sapatão como nós sabemos. Nós aprendemos muito, o movimento negro aprendeu muito com os movimentos de terreiro. Claro que não foi só com eles. Também estava presente as pessoas das igrejas, em especial da igreja católica, com uma formação muito forte do ponto de vista de uma Teologia da Libertação, em que se falava da importância de reconhecer o outro que diferente de mim, o outro que não como eu sou ou como eu espero que fosse, mas ainda assim esse outro é um sujeito com direitos, esse outro é um sujeito que é o irmão e que precisa ser acolhido. Isso está muito presente no movimento negro, muito forte, e isso me parece que foi importante. E aí, por fim, quando já no final dos anos 80, começo dos anos 90, a gente transforma a nossa agenda de luta em proposições de políticas de ações afirmativas, como política de cotas, política de concurso público etc., e a ideia da diversidade religiosa, também veio no bojo, essas discussões anteriores de valorizar e reconhecer os parentes indígenas, o pessoal dos terreiros etc. Em algum momento lá atrás ainda na construção dessas políticas de ações afirmativas houve em algum momento uma espécie de estranhamento que é normal para se afirmar, que foi a pauta do movimento indígena por exemplo era outra. O movimento indígena estava reivindicando prioritariamente políticas de demarcação de territórios. Não estava no cenário naquele momento, por exemplo, a questão do acesso à universidade, do acesso à educação formal universitária. Por isso que, na construção da pauta, a gente falou muito de uma política de ações afirmativas para nós, negros, porque, afinal de contas, era um movimento negro. Mas, num segundo ciclo, quando os movimentos indígenas identificam e consideram a importância de também acessar as universidades, esse primeiro caminho que nós havíamos traçado, essa trilha que a gente desenhou, foi muito bem reconhecido, digamos assim, pelos parentes indígenas e pelos parentes, pelos companheiros e companheiras dos terreiros de Umbanda, de Candomblé e etc.

7. PCN – Ao longo de sua vivência de professor, em sala de aula, como tem visto a evolução do exercício da cidadania por pretos, pobres e indígenas?
Luiz Antônio – A gente tem um desafio. Você viu que eu falei o tempo todo de negro, né? Eu não falei de pretos. Por quê? Porque o movimento, a gente construiu uma teoria, construímos uma formulação política de identidade negra. De um movimento negro. Claro que a gente tomou como referência, em alguma medida, a experiência do movimento negro americano, as experiências, por exemplo, socioculturais. A gente incorporou duas expressões que vieram do movimento negro, que era a ideia de “Black is Beautiful”, da beleza negra, e do “Black Power”, da força negra. E a gente traduziu isso ao nosso modo e tivemos uma enorme preocupação em primeiro construir, resgatar a identidade negra, porque a gente tinha vergonha de sermos negros, a gente sofria preconceitos e discriminações ao assumir a nossa identidade, por isso que nos assumimos como pardos, mulatos, morenos, e a partir daquele momento, a gente começou a dizer que havia uma beleza negra uma estética negra. A gente começou a valorizar a estética, a música, a ginga, a vestimenta, e fundamentalmente, parte dessa perspectiva do movimento negro. Hoje, a gente tem uma outra dinâmica, tem outros movimentos, por exemplo, incorporando essa ideia de uma identidade preta. Com uma tentativa, a meu ver, superficial de construir uma nova narrativa, de construir um novo discurso. É isso que está aí, eu respeito todas essas formas, mas é preciso reconhecer que essa luta da negritude tem uma história e essa história tem que ser respeitada. O atual debate sobre a questão da negritude não nasceu de hoje. Tem uma história atrás. E essa história precisa ser respeitada e essa história, para ser contada, precisa passar pela história do movimento negro unificado, o MNU.

Fotos – acervo pessoal.

Entrevista concedida a Cristóvão Nonato.

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