Kamélia, memória institucional e a responsabilidade de preservar o carnaval de Manaus

Por Almerinho Botelho

Escrever sobre a Kamélia é, inevitavelmente, escrever sobre pessoas que compreenderam, em seu tempo, a importância da cultura popular como elemento estruturante da identidade de Manaus. Entre essas figuras, nenhuma ocupa lugar tão emblemático quanto Gilberto Mestrinho, cuja atuação foi decisiva para o reconhecimento institucional do carnaval amazonense e, em especial, da Kamélia enquanto símbolo vivo dessa tradição.

No final da década de 1950, quando a Kamélia já se consolidava como expressão popular do carnaval manauara, iniciou-se um processo de aproximação progressiva entre essa manifestação cultural e o poder público municipal. Foi nesse contexto que se deu o encontro com Gilberto Mestrinho, então professor e homem público sensível às expressões da cultura popular. Desde os primeiros contatos, sua postura revelou compreensão rara, para a época, de que o carnaval não era mero entretenimento, mas linguagem simbólica do povo e patrimônio afetivo da cidade.

A trajetória política de Gilberto Mestrinho sempre foi marcada pela capacidade de diálogo com distintos segmentos sociais. Sua presença em eventos ligados à Kamélia não se limitava ao protocolo institucional: havia, de sua parte, interesse genuíno pela manifestação, pela imprensa carnavalesca, pelas lideranças culturais e pelo público que mantinha viva aquela tradição. Essa aproximação contribuiu decisivamente para ampliar a visibilidade da Kamélia e inseri-la de forma definitiva no calendário simbólico e cultural de Manaus.

O marco institucional mais significativo dessa relação ocorreu quando, nomeado prefeito de Manaus pelo então governador Plínio Coelho, Gilberto Mestrinho promoveu uma mudança aparentemente simples, mas de profundo significado histórico: a entrega da chave da cidade à Kamélia, que até então era realizada por representantes da administração municipal, passou a ser feita diretamente pelo chefe do Poder Executivo local. Esse gesto conferiu ao ato um peso político e simbólico inédito.

Ainda que de natureza protocolar, essa alteração representou avanço decisivo no reconhecimento oficial da Kamélia como expressão legítima do carnaval manauara e como elemento representativo da identidade cultural urbana. A partir dali, a tradição deixou de habitar apenas o campo da informalidade cultural e passou a integrar, de modo explícito, a relação institucional entre o poder público e as manifestações populares.

 

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Recordo-me de ouvir, ainda menino, histórias sobre esse período. Havia um sentimento coletivo de que algo maior estava sendo construído: a noção de que o carnaval de Manaus — e, nele, a Kamélia — passava a ocupar lugar de dignidade no espaço público. Essa memória não é apenas pessoal; ela pertence à cidade e aos que viveram aquele momento de afirmação cultural.

O falecimento de Gilberto Mestrinho, em 19 de julho de 2009, coincidindo simbolicamente com o Dia de São José, representou um ponto de inflexão nesse processo histórico. Sua ausência foi sentida não apenas no cenário político do Amazonas, mas também no campo das políticas culturais. Perdeu-se um gestor que compreendia a cultura popular como valor estratégico e identitário, e não como ornamento administrativo.

Ao longo de sua vida pública, Gilberto Mestrinho foi responsável por iniciativas estruturantes que moldaram o carnaval contemporâneo de Manaus. Entre elas, destaca-se a criação do sambódromo, equipamento urbano que passou a concentrar as principais manifestações carnavalescas do estado. Foi nesse espaço que, em 2006, a Kamélia desfilou pela primeira vez como escola de samba, reafirmando, de forma concreta, a permanência de seu legado e a coerência de sua visão cultural.

Minha relação com a Kamélia atravessa essa história. Cresci acompanhando sua trajetória, em um tempo em que o carnaval de salão ainda possuía glamour próprio e forte caráter familiar. Hoje, ao assumir a responsabilidade de preservar essa tradição, compreendo com maior clareza o peso simbólico que ela carrega. A Kamélia permanece viva porque foi reconhecida, cuidada e legitimada — tanto pelo povo quanto por gestores públicos que souberam ouvir a cidade.

Sempre afirmei que a Kamélia não pertence apenas ao Olímpico Clube. Ela pertence a Manaus. É patrimônio afetivo, histórico e cultural. Sua sobrevivência, em um cenário de constantes transformações do carnaval, depende da participação do público, do engajamento da comunidade carnavalesca e da manutenção de políticas culturais comprometidas com a memória coletiva.

Nesse sentido, lembrar Gilberto Mestrinho é mais do que prestar homenagem. É reafirmar um compromisso. Seu legado permanece inscrito na história do Carnaval de Manaus, na institucionalização da Chegada da Kamélia e na compreensão de que tradição não se conserva por inércia, mas por decisão política, sensibilidade cultural e responsabilidade histórica.

Preservar a Kamélia, hoje reconhecida como patrimônio cultural, é dar continuidade a essa visão. É garantir que futuras gerações compreendam que o carnaval de Manaus não é apenas festa, mas narrativa viva de um povo — e que figuras como Gilberto Mestrinho ajudaram a escrever, com gestos concretos, essa história.

 

Almerio Botelho – Presidente do Olímpico Clube

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