Campanha “2% pra Cultura, JÁ!” defende nova agenda para o Amazonas

O movimento “2% pra cultura, já!” lança uma nova etapa de mobilização no Amazonas defendendo que, em um país que cresce e em um estado que bate recordes econômicos, a cultura não pode continuar fora da pauta central das políticas públicas.

Brasil cresce – e a cultura cresce junto, mas quase não aparece no orçamento.  De acordo com o IBGE, o PIB do Brasil passou de R$ 9,9 trilhões em 2022 para R$ 11,7 trilhões em 2024, um crescimento nominal de aproximadamente 18,2% em
dois anos, com alta real de 3,4% só em 2024. Agência de Notícias – IBGE+2Agência de Notícias – IBGE+2
Nesse mesmo cenário, a cultura e a economia criativa deixaram de ser “coadjuvantes”:
• A economia da cultura e das indústrias criativas (ECIC) já representava 3,11% do PIB nacional em 2020, movimentando cerca de R$ 230 bilhões.

Serviços e Informações do Brasil+1
• Em 2023, a indústria criativa passou a responder por 3,59% do PIB, o equivalente a R$ 393,3 bilhões. Firjan+2Observatório Firjan+2
“Ou seja: a cultura e a criatividade crescem proporcionalmente mais que a economia como um todo, geram emprego, renda e inovação. Mas, no orçamento público, isso não aparece.” – Loren Lunière.

Leia mais

https://culturanorte.com.br/2025/12/01/manauscult-promove-oficina-gratuita-sobre-producao-de-eventos-de-rua-voltados-as-bandas-e-blocos-de-carnaval/

https://culturanorte.com.br/2025/11/25/espetaculo-sebastiao-e-eleito-como-melhor-elenco-pelo-premio-cenym-de-teatro-nacional-2025/

https://culturanorte.com.br/2025/11/17/uma-celebracao-ancestral-marcou-o-1o-festival-de-danca-indigena-kaxiri-na-kuia-do-parque-das-tribos/

Amazonas: economia em alta, cultura em espera
O Amazonas vive um ciclo recente de expansão econômica. O PIB do estado chegou a R$ 169,7 bilhões em 2024, com crescimento nominal de 6,96% em relação a 2023.
Para 2025, segundo a SEDECTI, as projeções indicam que o estado deve se aproximar ou ultrapassar a marca de R$ 180 bilhões de PIB, mantendo o Amazonas entre as principais economias do país.
Apesar disso, a cultura e a economia criativa não acompanham esse movimento. A ausência de políticas estruturadas para o setor, especialmente no interior, significa oportunidades perdidas: empregos que não foram gerados, cadeias produtivas que não se consolidaram, turismo cultural que não sai do papel e juventudes sem acesso a formação e trabalho no campo da cultura.
“Se o Amazonas destinasse, por exemplo, 2% do seu orçamento estadual de 2025 (cerca de R$ 31,4 bilhões) para a cultura, isso significaria algo em torno de R$ 628 milhões anuais exclusivamente para o setor, para fortalecer festivais, circuitos, formação, manutenção e criação de novos equipamentos culturais, editais e políticas permanentes para todo o estado. Hoje, a realidade está muito distante disso. A verdade é que a Secretaria de Cultura e Economia Criativa opera com um recurso mínimo para pagar a folha, manutenção de
equipamentos e o que sobra para fomento é pouco para atender a forte demanda de produção do nosso estado. ” – sugere Loren Lunière, Gestora Cultural e Conselheira Municipal de Cultura em Manaus, criadora da campanha “2% pra cultura, já!”.
Parintins: a prova viva de que cultura é economia
Em contraste com a ausência de políticas estruturadas na maioria dos municípios, o Festival Folclórico de Parintins é o exemplo mais forte de como a cultura pode ser motor econômico quando há fomento contínuo:
• Em 2025, o festival movimentou cerca de R$ 215 milhões na economia, somando receitas de turismo, serviços, comércio, transporte e cadeia produtiva local;
• A cada ano, a festa cresce em público, impacto e projeção nacional e internacional.
Há mais de trinta anos, o Festival de Parintins é, na prática, o único grande festival cultural do Amazonas com fomento público consistente e contínuo em grande escala, envolvendo governo estadual, governo federal e Prefeitura.
“Se um único festival rubricado na Lei Orçamentária, em um único município, consegue movimentar mais de R$ 200 milhões em poucos dias, o que aconteceria se o estado tivesse uma rede de festivais, circuitos e programas culturais permanentes, com orçamento garantido em lei?”, questiona Loren Lunière.
Outros festivais existem – falta orçamento, não falta cultura
O Amazonas não é só Parintins. Há décadas, a sociedade civil,  artistas e produtores constroem festivais e ações culturais que já movimentam a economia criativa, mas que sobrevivem com recursos esporádicos, editais pontuais e muita precariedade, porque não têm rubrica própria na Lei Orçamentária.
A campanha “2% pra cultura, já!” defende que é urgente rubricar na LOA estadual festivais e iniciativas estratégicas, entre eles:
• Festival de Teatro da Amazônia – organizado pela FETAM, é um dos mais importantes encontros das artes cênicas da região, revelando grupos, dramaturgias e diretores do Amazonas e de outros estados;
• Festival de Cinema Olhar do Norte – dedicado ao audiovisual amazônico, dando visibilidade a realizadores da região, obras independentes, mostras e debates, com potencial enorme para turismo cultural e formação de
público;
• Festival de Música do Amazonas – que pode e deve ser estruturado como circuito pelos municípios, com incentivo à música autoral, circulação de artistas, gravações, formação em produção musical e  premiações para composições e intérpretes;
• Festival do Beiradão – que preserva e valoriza o ritmo amazonense, criado a partir das comunidades ribeirinhas, reconhecido em 2025 como Patrimônio Cultural do Estado do Amazonas;
• Festival de Circo Amazonense – fortalecendo grupos, escolas e coletivos circenses, ocupando praças, lonas e teatros, articulando circo
contemporâneo, tradicional e popular;
• Festivais e circuitos de Artes Visuais, Moda, Cultura Urbana, Dança, Literatura, Cultura Popular, Cultura Indígena e Afro-Amazônica, entre
outras linguagens que já existem no território, mas carecem de continuidade e orçamento.
Não se trata apenas de “apoiar eventos”, mas de transformar esses festivais em políticas de Estado, com:
• Rubrica específica na Lei Orçamentária Anual (LOA);
• Planejamento plurianual;
• Editais estruturantes;
• Garantia de realização regular e de circulação pelo interior. “Rubricar esses festivais na LOA é tirar a cultura da incerteza. É deixar de
depender do interesse do governo da vez, e transformar o que já dá certo em política pública permanente”, afirma Loren Lunière.
Quanto o Amazonas deixa de ganhar sem investir em cultura?
Ao concentrar fomento estruturado em apenas um grande festival e não criar uma rede de eventos e programas culturais em todas as calhas de rios e regiões, o
estado:
• Deixa de gerar novos polos de turismo cultural;
• Perde a chance de transformar saberes tradicionais, linguagens contemporâneas e produção independente em cadeias produtivas
sustentáveis;
• Mantém a juventude do interior sem alternativas de trabalho criativo, empurrando talentos para a informalidade ou para a migração forçada para Manaus.
Cada festival não realizado, cada circuito cancelado e cada política que não sai do papel é dinheiro que deixa de circular, tributos que deixam de ser arrecadados e empregos que deixam de existir.

2% pra Cultura, já! – Uma agenda para os municípios do Amazonas
A campanha defende que é urgente:
• Reestruturar as políticas culturais nos municípios do Amazonas, com conselhos, planos, fundos e sistemas de cultura funcionando de verdade;
• Garantir que no mínimo 2% do orçamento estadual e municipal sejam destinados à cultura e à economia criativa;
• Rubricar na Lei Orçamentária os principais festivais e programas culturais (teatro, cinema, música, circo, artes visuais, moda, cultura popular etc.), para dar continuidade e previsibilidade;
• Descentralizar o fomento, levando recursos para todos os territórios, e não apenas fomentar festas nos municípios que contratam
excessivamente atrações nacionais em pequenos municípios – destinando milhões para escritórios artísticos de fora do estado – e que
deixam de contratar artistas autorais amazonenses ou investir em outras linguagens culturais nestas pequenas cidades, fragilizando a nossa identidade cultural;
Recolocar a cultura no centro da pauta política amazonense, como eixo de desenvolvimento econômico, inclusão social, educação e afirmação de identidades.
“A cultura é um dos caminhos mais inteligentes e estratégicos para diversificar a economia, gerar emprego no interior e valorizar quem já faz arte e memória todos os dias”, resume a coordenação da campanha.

Grandes nomes da cultura amazonense reforçam a campanha “2% pra
cultura, já!”
Um vídeo publicado no perfil de Loren Lunière conta com grandes nomes da cultura amazonense de diferentes linguagens, como os atores de cinema e teatro,
Adanilo, Rosa Malagueta e Isabela Catão e Ana Lígia Pimentel, que estiveram representando o Amazonas no Festival de Cannes, Festival de Berlim e Festival de Gramado.
“O mundo olha pra nós e quer conhecer a nossa cultura, quer saber mais sobre nós, mas infelizmente os grandes investimentos são destinados para eventos com grandes atrações nacionais e não estamos no centro, como o estado do Pará faz muito bem, por exemplo.” – Adanilo (ator indígena da etnia Munduruku, dramaturgo e diretor de teatro e cinema)

“A importância 2% pra cultura é pouco diante de tantas mazelas que os artistas do nosso estado sofrem, muitos de nossos artistas não tem casa nem uma forma de assistência, esses 2% já seria o primeiro passo.” – Rosa Malagueta (atriz de teatro
e cinema).
“Manaus também precisa avançar nas políticas públicas nos bairros periféricos, na zona rural e ribeirinha de Manaus. Faltam ações culturais e incentivos a projetos que já existem nas periferias. É importante que as secretarias fomentem estas produções locais também.” – Loren Lunière.

Foto: assessoria de imprensa.

Gostou? Compartilhe